Após
a vitória do carnavalesco Paulo Barros com a Unidos da Tijuca neste
carnaval de 2012, algumas ponderações surgiram no meu horizonte
reflexivo. Não são de agora, é verdade. Há algum tempo venho esboçando
um livro sobre as evoluções estéticas nos desfiles das escolas de samba
que discuta o trabalho dos carnavalescos dentro do sentido dessa festa.
Tentarei, em algumas linhas, fazer uma análise crítica, não
exatamente uma pesquisa de dados, mas um apanhado de observações
relevantes, tendo por objetivo decodificar o trabalho do carnavalesco
Paulo Barros.
Falarmos de Paulo Barros, hoje, é uma reflexão quase obrigatória.
Todos nós estamos tentando entender sua estética inovadora. Para todos
os gostos, para todas as opiniões e para todas as reflexões a respeito: é
importante, porém, entender Paulo Barros como um carnavalesco autoral.
A linha de carnavalescos autorais é pontuada não apenas pelos que
imprimiram sua marca de bom gosto ou talento nos trabalhos realizados.
Mais que isso: os "autorais" são aqueles que imprimiram uma marca
pessoal, destacando algo tão subjetivo e "assinado" que dificilmente não
se pode identificá-los em seus acenos artísticos.
Há elementos no trabalho de Paulo Barros que o caracterizam, e é esse
crivo analítico que pretendo focar. O primeiro elemento que eu
destacaria é a sua engenharia cinematográfica. Paulo trouxe para os
desfiles de escola de samba efeitos especiais com referências claras ao
cinema. Sim, alguns o taxaram de hollywoodiano por isso. Alguns o
alfinetam como "estrangeirista", confundindo Broadway e Disneylândia com
Sambódromo e escola de samba. Cito propositadamente esse viés crítico
para denotar que, preferências à parte, esse estilo próprio e inusitado
faz dele um carnavalesco autoral.
Ele apropriou-se de efeitos especiais e do efeito surpresa para
arrebatar o publico em seus desfiles. Suas alegorias transformam-se,
possuem personagens que também se transformam em cena. Lembramos, é
claro, da mágica comissão de frente de "É Segredo", além das "molas de
sanfona" deste ano. Temos ainda o carro dos gêneros musicais "Ouvindo
Tudo que Vejo, Vou Vendo Tudo que Ouço" (Tijuca 2006), que, a cada abrir
e fechar de cortinas transformava o cenário e os componentes em
dançarinos de dado gênero musical. Os carros de Paulo Barros não são
apenas "alegóricos": são performáticos também. Apoteose conceitual: a
alegoria de cabeça para baixo, em "A Viradouro Vira o Jogo" (2008), onde
o artista expôs um carro-síntese de sua proposta de enredo. E ainda a
representação do "bota-abaixo" de Pereira Passos, com o Theatro
Municipal desabando no abre-alas da Vila Isabel em 2009 ("Neste palco da
folia, é minha Vila que anuncia: Theatro Municipal - A centenária
Maravilha", assinado em parceria com Alex de Souza).
Outro elemento presente é a humanização das alegorias. Sim, lá atrás,
Joaosinho Trinta e Fernando Pinto já abarrotavam os carros alegóricos
de pessoas. Mas a grande revolução estética dos carros alegóricos, a meu
ver, foi a criação das "alegorias vivas". Caso célebre do carro do DNA
em 2004. Numa época em que tanto se discute que o componente dos
desfiles perdeu seu espaço de destaque para o elemento cenográfico,
Paulo Barros tripudia dessa vertente e coloca figuras humanas "vestindo"
um conjunto de "prateleiras", levando mais uma obra de arte marcante
para a avenida. É o resgate da figura do componente dentro da estética
dos desfiles cenográficos.
Para além de seus efeitos especiais e de sua intrincada mecânica de
movimentos nas alegorias, Paulo também procura desenvolver alegorias que
efeito visual impactante, fazendo uso de materiais alternativos para
traduzir aspectos de seu enredo. Carros inesquecíveis como o Homem de
Lata feito com panelas, na Tijuca ("Entrou Por Um Lado, Saiu Pelo
Outro... Quem Quiser Que Invente Outro", em 2005) ou os extraordinários
homens de barro deste ano são o exemplo do que a mentora do carnaval,
Maria Augusta, definiu com o conceito contemporâneo de "instalação
artística" para analisar os trabalhos de Paulo Barros.
Seu esforço para aproximar o estrangeirismo da cultura do samba,
rejeitando o xenofobismo e tingindo o carnaval com cores de pop art,
também é reconhecido nos personagens "importados" com os quais ele
"incrementa" seus enredos: Michael Jackson, Indiana Jones, Avatar, Darth
Vader, Wally, Homem-Aranha, Harry Potter, Margareth Tatcher e até o Rei
Leão já integraram sua lista! É como se ele promovesse uma
"globalização temática" do carnaval para que, enfim, pudesse ser
entendido e reconhecido nos recantos do planeta onde a festa, afinal, é
assistida.
Por sua formação em Arquietura, Paulo sempre demonstrou mais capricho
no movimento e no efeito das alegorias do que propriamente em seu
acabamento. Não é um "deus do requinte", muito embora este ano tenha
surpreendido justamente por apresentar, também neste quesito, um
acabamento final irrepreensível de seus carros e fantasias.
Houve quem o comparasse a Joãosinho Trinta. Atrevo-me a dizer que seu
legado é mais intrigante. O mestre maranhense impôs a estética de
verticalização dos desfiles, com alegorias gigantes e suntuosas. Dali
pra frente, ou as demais escolas seguiam o diapasão ou ficariam
defasadas. Pronto: todas passaram a se agigantar, a verticalizar seus
carros, a elevar seus desfiles. Com Paulo, é mais complicado: tudo o que
ele faz é diferenciado, sabemos. Mas, se alguém reproduz, fica
descaradamente caracterizado como cópia. Paulo não lançou uma tendência:
ele simplesmente é a tendência! E qualquer esforço no sentido de
trilhar seu caminho criativo fica imediatamente sob risco de imitação
barata. Por força dessa autenticidade, Paulo Barros é, hoje, um
carnavalesco inimitável. Nesse ponto, aproxima-se dos trabalhos do
saudoso Fernando Pinto.
Enfim, essa galeria de artistas da grande ópera de rua que é o desfile de escolas de samba tem muito o que se observar.
Enquanto isso, Paulo Barros está em sua usina criativa efervescendo
novas ideias para 2013. Tomara que o próximo desfile chegue logo!