quinta-feira, 28 de junho de 2012

Seis ou meia dúzia?



Talvez a longa ausência nem tenha sido notada, mas peço desculpas por ela. De fato, andei numa fase de muito trabalho, em que as tarefas se sucederam de um modo alucinante. Mas devo confessar que esta não foi a única razão do meu silêncio de dois meses. Mais do que o tempo cronológico, me faltou tempo interior para refletir e escrever sobre o assunto que mais me mobiliza. Sempre que acaba o carnaval, se abate sobre nós uma melancolia infinita, que eu sempre apelidei de depressão pós-momesca. Aí vêm as festas de entrega dos prêmios, vêm os aniversários de várias escolas e, para os devotos, vem a festa de São Jorge. Com isso vamos nos distraindo até que se anunciam enredos e aparecem as sinopses, depois a apresentação dos sambas, a disputa com as quadras funcionando a todo vapor, e quando nos damos conta já é carnaval de novo.

Este ano para mim foi bem mais complicado, em razão da enorme dificuldade que tive para me refazer do resultado do Grupo de Acesso A. E não me refiro apenas à vitória da campeã, que até as pedras do calçamento já sabiam de antemão quem seria, mas sobretudo ao não cumprimento, pela Liesga, do regulamento estabelecido, patenteando a arbitrariedade e os casuísmos que ponteiam nosso carnaval.
Não fui a única a me espantar com isso: na minha revolta tive ilustres companhias, inclusiva a do prefeito da cidade, que se manifestou publicamente contra a entidade de classe do Grupo de Acesso, desqualificando-a para prosseguir a parceria com a prefeitura no tocante à organização do desfile. E aí...
Todo mundo conhece a história do marido que, ao encontrar a esposa traindo-o com seu maior amigo no sofá da sala, perdoa a esposa e mantém o amigo, mas manda queimar o sofá... Eis o que me veio à cabeça quando soube que o presidente da Lesga, por mera coincidência também presidente da escola campeã, renunciou ao cargo e para a diretoria foram os dois presidentes das escolas não rebaixadas, as beneficiárias do "tapetão". E, para colaborar um pouco mais para a queima do sofá, a Lesga não mais existe, aparecendo em seu lugar a Lierj.
Ah bom! Então está tudo resolvido... Reginaldo Gomes não é mais o presidente? Lesga não há mais? Então está tudo resolvido. As justificativas dos julgadores, ainda hoje, que eu saiba, não divulgadas, nem interessam mais... Ninguém fala mais no assunto. E a gente vai ficando um pouquinho mais triste, um pouquinho mais descrente dos rumos do carnaval.
Sinceramente, não consigo partilhar da crença de que se deve dar um crédito de confiança a quem está assumindo agora. Porque não consigo mais ser tão pura e ingênua a ponto de confiar em quem se beneficia de casuísmos desse tipo. As coisas já começam muito mal e tenho o direito de achar que ainda vão piorar.
Paralelamente o anúncio dos primeiros enredos para 2013 não ajudou a me reanimar. Tomara que eu esteja sendo injustificadamente pessimista, mas acho que o que está anunciado por aí representa um grande retrocesso em relação aos dois últimos carnavais. E, quando a gente imaginava que as escolas de samba estavam se conscientizando da importância de escolher enredos com que os componentes e o público pudessem se identificar, vem esse balde de água fria que são os enredos do próximo carnaval. Balde não: jato de lavadora de alta pressão.

Não consigo entender por que o carnaval do Rio é adepto da prática do tiro no pé! Os dirigentes parecem empenhados única e exclusivamente em levá-lo ao impasse e o pretexto para isso é a necessidade de patrocínios, de mais e mais dinheiro. Já ficou provado que só dinheiro não ganha carnaval. Portanto, não vamos esquecer que sem emoção, sem participação e empenho, sem alegria, não há dinheiro que salve o carnaval.
Tomara que eu esteja sendo saudosista e que tudo vá às mil maravilhas. Às vezes tenho mesmo a sensação de que esta é questão. Por exemplo, ao entrar na linda quadra reformada do Império Serrano, dotada de todos os confortos de que as co-irmãs dispõem, me senti dividida: ao orgulho e à alegria se misturou um incômodo sentimento de nostalgia de um tempo em que não havia paredes de vidro separando o público do samba, pois quem ia a uma quadra de escola de samba queria ouvir muito bem a bateria, os intérpretes e o povão cantando na quadra e nem se importava de suar um pouquinho. Ninguém pensava em se proteger do incômodo, porque a alegria e a emoção valiam a pena. Mas deixa pra lá: as coisas mudaram mesmo e deve ser melhor hoje do que outrora. Eu é que não estou conseguindo enxergar.
De qualquer maneira, estou voltando com muita satisfação a este espaço e prometo não falhar mais. É um privilégio dispor deste espaço ao lado de colegas tão ilustres e poder dialogar com gente que, como eu, põe o samba num lugar muito especial em sua vida.

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