quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Portela 1995




Em 1995, pela primeira vez desde sua fundação, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA) assumiu completamente a organização do carnaval e dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial. Antes, dividia as responsabilidades com a Riotur, empresa de turismo do Estado do Rio de Janeiro. Neste ano, toda a responsabilidade pela organização, estruturação, venda de ingressos, direitos de transmissão e de imagem, bem como os frutos e receitas deste evento caberiam àquela entidade. O então presidente da Liga, ao final do desfile, comemorava o sucesso deste novo empreendimento. Realmente, naquele ano a LIESA faturou uma de suas maiores receitas, perdurando essa nova estrutura até os carnavais atuais.

O cd dos sambas de enredo reunia uma belíssima safra de composições. Segundo os entendidos, um dos melhores álbuns de sambas de muitos tempos. A expectativa em torno do Carnaval, da execução dos sambas na avenida e dos próprios desfiles causou euforia no período pré-carnavalesco. Um grupo especial com dezoito agremiações gerava uma grande expectativa, diante do investimento alto das escolas na preparação de seus carnavais.

A tradicional Escola de Samba Portela apresentava o enredo “Gosto que me enrosco”, de autoria do carnavalesco José Félix Garcez, que cantaria a história do Carnaval, usando como título de seu enredo uma música bem famosa e conhecida de carnavais antigos. Na verdade, este enredo compunha uma trilogia iniciada em 1994, quando cantou a história do samba e que culminaria em 1996, quando cantaria a história da música.

A velha águia, maior detentora de títulos dos desfiles de Carnaval, preparara-se para a realização de um desfile majestoso. Luxo, requinte, estudo, ambientação e inserção de seus elementos visuais (fantasias e alegorias) de acordo com a proposta do enredo. Um verdadeiro “rio azul e branco”, relembrando a famosa música de Paulinho da Viola, portelense nato, nas cores utilizadas pela escola para compor seu desfile. Além do que toda escola brilhava. Fantasias e alegorias confeccionadas em materiais como acetato e lamê. Materiais caros, luxuosos, que proporcionaram um efeito de resplendor, que ficou muito mais bonito com o amanhecer da segunda-feira carnavalesca, uma vez que o céu ganhava tons de rosa e azul, além do brilho dos primeiros raios da manhã perfazendo um espetáculo inesquecível.

A Portela atravessara uma série de disputas políticas internas, entre seus diversos segmentos, nos anos anteriores, o que levou ao afastamento de vários portelenses ilustres, muitos dos quais consideravam que a escola afastara-se de suas raízes. Esse Carnaval de 1995 acabou por congregar os verdadeiros sambistas da escola e a volta de Paulinho da Viola, João Nogueira, dentre outros diversos baluartes, marcou todo resgate e a valorização do samba, impregnando toda a agremiação a cantar muito e lutar pelo título daquele ano. Celebridades, por sua vez, como a então madrinha de bateria, Luíza Brunet foram afastadas, sendo convidada para esse posto uma tradicional passista da escola, a Nega Pelé.

A oitava escola a desfilar no domingo de Momo iniciou o enredo sobre a história do Carnaval pela apresentação da comissão de frente, o triângulo amoroso mais formoso da referida folia: A Corte do Pierrô e do Arlequim (composições masculinas) à Colombina (composições femininas). O ingênuo Pierrô, desprezado pela bela Colombina, que era cortejada pelo Arlequim, o amante fanfarrão. A fantasia trazia o elemento humano, caracterizado como um dos respectivos personagens e máscara dos outros. Bailado preciso e interativo, coreografada pelo Jerônimo Patrocínio, primeiro mestre-sala do desfile deste mesmo ano.

A águia, símbolo da agremiação, apresentava-se totalmente inserida ao enredo: usava máscara, ricamente adornada, chapéu de folião e um guizo no bico. Uma das mais belas águias da história da Portela: plácida, imponente, com as asas abertas, abraçando a toda avenida. Último carro a ser preparado, pois uma superstição portelense, diz que dá azar ver a águia pronta mais cedo.

Segue-se um casal de mestre-sala e porta-bandeira, que carregava um pavilhão alusivo aos vinte e um títulos da escola. Os fundamentos do que seria o primeiro Carnaval brasileiro começam a ser apresentados: uma festa realizada pelo governador Correia de Sá, na capitania do Rio de Janeiro, para comemorar a coroação de Dom João IV, como Rei de Portugal. Em março de 1641, o governador desfilou pelas ruas da cidade, acompanhado de 166 cavaleiros. Este fato que pode ser considerado o primeiro Carnaval aconteceu num Domingo de Páscoa e foi o alicerce para o entrudo português (o Carnaval daquele país) transformar-se no Carnaval brasileiro. Seguindo a esse domingo, aconteceram corridas de touros pelas ruas do Rio, acompanhadas da primeira peça teatral a ser encenada em solo brasileiro.

Bisnagas que lançavam água; figuras do pintor francês Debret, retratando usos e costumes da época; limões de cheiro compunham o setor que imortalizava o entrudo, espécie de Carnaval que durou trezentos anos. Em São Paulo originaram-se os bailes de máscara, que compuseram os ricos bailes da corte, em meio a batalhas de flores, confete e serpentina – as manifestações que vieram depois das bisnagas de água.

As burrinhas – fantasias de corpo de cavalo, carregadas pelos foliões – são apresentadas, relembrando os animais que vinham à frente dos ranchos e cordões dos carnavais antigos. A figura do Zé Pereira carnavalesco é apresentada: um sapateiro português, que nas épocas carnavalescas pegava um bumbo e saía, pelas ruas, acordando a vizinhança na alvorada dos dias de brincadeira. Aqui começam a surgir as fantasias que se conhecem até os dias atuais: caveira, índio, diabo. Damas mascaradas completavam o setor, como as primeiras mulheres cariocas que participaram da folia.

Os clubes carnavalescos tradicionais são lembrados, as chamadas Grandes Sociedades: Tenentes do Diabo, os Democráticos e os Quenianos. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Jerônimo e Andréia bailam entrosados, numa dança clássica e bem íntima, revelando uma cumplicidade especial. A fantasia lembrava as balizes dos ranchos carnavalescos, que originaram o casal nesse formato, hoje, conhecido. A bateria apresentou-se vestida sob cinco fantasias, todas ligadas ao tema Carnaval. Cada naipe de instrumentos vestia uma roupa diferente. As Grandes Sociedades e todo seu luxo e fausto se fazem presentes em uma alegoria que tenta representar toda grandiosidade e imponência daquelas instituições. Essas sociedades arrecadavam dinheiro para comprar escravos e alforreá-los.

A influência africana se faz presente na estruturação do Carnaval. Lembranças das festas africanas apresentadas por baianos que moravam no Rio, especialmente na região da Gamboa, onde hoje, localiza-se a Cidade do Samba. Essa influência materializa-se na cerimônia da coroação do Rei do Congo, festa realizada, na Bahia, em devoção à Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Existem variantes para essa festa, como a própria congada.

Fantasias antigas são relembradas: piratas, dominós, pierrôs, que abrem cortejo para a alegoria Carruagem da Folia, que lembra os corsos. Carros abertos, puxados por cavalos, mais tarde motorizados, que desfilavam pela antiga Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Automóveis e carruagens que iam decorados para a avenida. Além dos próprios componentes desses carros.

O primeiro samba gravado “Pelo Telefone”, de autoria de Donga. Com esse samba, tocado pelas rádios – maior meio de comunicação da época – o ritmo começou a ser difundido e caiu no domínio do público. O baile de Gala do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com toda sua pompa, trazia Clóvis Bornay, que já houvera sido carnavalesco da Portela, como destaque, cuja fantasia era Lenda Viva do Carnaval.

Fantasias da década de trinta são representadas: bebê chorão e sua chupeta. E os blocos rivais: Bafo da Onça e Cacique de Ramos, que protagonizaram várias batalhas de folia e diversão, com muito confete e serpentina, nas viagens dentro dos bondes daquela época. Uma recordação saudosa, com lança-perfume e o Rei Momo coordenando toda folia.

Destaque de chão vestia a fantasia Chica da Silva, que fora enredo do Salgueiro, mas que ficou imortalizada por Isabel Valença, durante o desfile da vermelho e branco. A ala das baianas surge, dourada, imponente, como roupa de destaque, com adereços ricos, vestindo a fantasia Colombina, Pierrô e Arlequim. Surge a alegoria final “É hoje! E o samba continua…”, fazendo uma analogia entre o começo do samba, na zona portuária do Rio de Janeiro, com os estivadores, até os dias atuais, com belas mulatas e toda a nação portelense unida, para realizar de forma magistral esse impecável desfile. No carro, ainda, Dona Zica, da Mangueira, viúva de Cartola junto da Velha Guarda da Portela, prestigiada, aclamada e reconhecida como fundamental à escola.

Um desfile impecável, rico, ao melhor estilo da garra portelense. Toda a história e marcas fundamentais desta agremiação fizeram-se valer durante este inesquecível desfile. Vale lembrar que os cronômetros da avenida, enquanto a Portela desfilava permaneceram zerados, devido a um problema anterior que ocorrera quando da passagem do Salgueiro, que, com exagero de mais de seis mil componentes, correu para findar seu desfile e os relógios quebraram nesse período final. Permaneceram assim até o final desse dia de desfile.

Na apuração, com cinco jurados para cada um dos dez quesitos, sendo a maior e a menor notas descartadas, a Imperatriz Leopoldinense, da carnavalesca Rosa Magalhães, cantando o jegue cearense, sagrou-se bicampeã. Perdurava o estilo do desfile técnico, inaugurado pela escola de Ramos no ano anterior. Coube à velha águia de Madureira, berço do samba, o segundo lugar, com uma diferença de apenas meio ponto, para a campeã. Resultado que surpreendeu, uma vez que a escola foi saudada, ao final de seu desfile, com os gritos de “É campeã”. Independente disto, foi um desfile que resgatou toda alma e história valorosa da escola.

O samba de enredo, uma verdadeira preciosidade, agraciado com o Prêmio Estandarte de Ouro, embalou corretamente e alegremente este mágico desfile e contribuiu para sua imortalização. No carro de som, o tradicional Dedé da Portela, desta vez como auxiliar, sendo o principal intérprete o tenor Rixxa e ainda com auxílio de Carlinhos de Pilares, Rogerinho Renascer e Celino Dias. Interpretação fortíssima e muito bem cadenciada do samba, fazendo componentes, público e arquibancada brincarem o Carnaval, na recordação de sua história.

Samba de Enredo 1995: “Gosto que me Enrosco”

Compositores: Noca da Portela, Colombo, Gelson

Intérprete: Rixxa

É carnaval
O Rio abre as portas pra folia
É tempo de sambar
Mostrar ao mundo a nossa alegria
Veio bailando pelo mar
E de lá prá cá nasceu essa magia
Samba, que me faz feliz
Em sua raiz tem arte e poesia

Bate o bumbo lá vem Zé Pereira
E faz Madureira de novo sonhar
A Portela não é brincadeira
Sacode a poeira, faz o povo delirar

Gosto que me enrosco de você, amor
Me joga seu perfume, hoje eu tô que tô

Praça Onze, berço das nossas fantasias
Deixa Falar deixou no peito a nostalgia
Dos ranchos, blocos e cordões
Dos mascarados nos salões
Pierrô beijando a Colombina
Chuva de confete e serpentina
Dos bondes ficou a saudade
Ah! Que saudade do luxo das sociedades

Abram alas, deixa a Portela passar
É voz que não se cala
É canto de alegria no ar

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