terça-feira, 26 de julho de 2011

"Morro" de Simplicidade"




“Estação Primeira”, com Carol Sant`Anna. Duvido que alguém não sinta, nesse clipe simples, nesses versos simples, a magia de que vou falar. Tudo muito simples. 





Ninguém soube nem talvez nunca saberá explicar o encanto que o Morro da Mangueira exerce sobre as pessoas. Poderia ser mais uma favela (detesto a palavra “comunidade” que a hipocrisia politicamente correta nos impõe!) como tantas outras do Rio de Janeiro. Ora, quantas comunidades (favelas ou não) desse país afora vivem com dificuldade, tem gente humilde, que em meio às mazelas urbanas sobrevivem à custa de muita luta, suor e esforço? Ao contrário do que se pensa, o encantamento da Mangueira não está no fato de ser um morro cravejado de barracos, e com pessoas menos favorecidas num vai e vem frenético. Esse cenário é comum, e não é privilégio (?) somente daquele lugar . Recuso-me a acreditar que seja isso o que mais chame a atenção naquele morro, eternizado nos versos de tanta gente que para não cometer uma heresia, prefiro não citar, porque fatalmente não caberiam todos nem no texto, e muito menos na minha memória nesse exato momento.
A resposta poderia estar no samba, afinal de contas, os nomes da música que em algum momento (ou sempre) cantaram Mangueira formam capítulos e mais capítulos da história da cultura popular brasileira, e claro, a eles deve-se e muito o reconhecimento do lugar . Mas o que teria feito essas pessoas cismarem justamente com aquele morro, com aquela gente? Poderia ser qualquer outro morro, ou qualquer outro bairro do Rio de Janeiro de tantos redutos de bambas e de samba, o Rio da Lapa, de Madureira, dos morros da Cuíca, Borel, Salgueiro.
Ali mesmo, bem pertinho do Morro da Mangueira, tem o Estácio, para muitos o berço do samba carioca (eu me recuso a dizer que o berço do samba não é na Mangueira).
Mas seria tão óbvio achar que essa magia veio disso tudo, sem considerar a imensa sorte do lugar, porque, vamos combinar, se tem uma coisa que nessa questão não faltou à Mangueira foi sorte! Tanta gente boa cismar com o mesmo lugar, e mais, durante tanto tempo... Esse fascínio pela Mangueira é atemporal... Ele não morreu junto com os grandes nomes que eternizaram o lugar, aliás, a cada poeta que se vai, a mística se fortalece. Como diz um samba-enredo da escola, a “Mangueira é o tronco forte que dá frutos a vida inteira”.
Resolvi me permitir uma ousadia: tentar explicar o que é a que Mangueira tem. Talvez a explicação esteja justamente na simplicidade! Lá em Mangueira tudo é tão soberbamente simples que se torna majestoso. Na quadra da Mangueira , junto às pessoas comuns, vê-se artistas, celebridades, políticos e toda gama de gente, tudo tão natural, tudo tão deliciosamente junto e misturado. É tão bom ver as senhoras do morro devidamente alinhadas para um ensaio e ao mesmo tempo ver as beldades da TV tão deliciosamente despojadas, desmascaradas! E tudo ali, do ladinho daquelas casas simples! Quando se está na Mangueira, não existe rico, nem pobre, nem feio, nem bonito, nem famoso, nem anônimo...
Lá o que existe é um orgulho imenso de olhar toda aquela gente com o rosto marcado, com as mãos calejadas, com a vida difícil, mas com um imenso sorriso no rosto. É como se o mundo que conhecemos deixasse de existir, e ali fosse outra dimensão, dando-nos aquela certeza gostosa de que, pelo menos em Mangueira, não existe lugar para infelicidade. Pode até haver tristeza, coisa da natureza humana. Mas ali não vejo nos rostos apenas alegria estampada: vejo sorrisos felizes. E entre alegria e felicidade existe uma enorme distância, talvez a mesma distância que separa o mundo real do mundo que todos encontram, somente ali, nos botecos, vielas, ruas e becos de um lugar de gente simples, mas que bate no peito, com muito orgulho.
O lendário nos fala de Atlântida, Eldorado, Éden, Shangri-lá. Quem sabe o Morro da Mangueira não seja um desses lugares imaginários que “pra se entender tem que se achar que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais....”

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