As escolas já iniciam seus ensaios técnicos, e assim os mestres, de harmonia, bateria, começam organizar seus componente para o desfile. Em homenagem a esses guardiões de nossa cultura, destaquei uma entrevista de Mestre Mug, prestada para o Projeto Memória das Matrizes do Rio de Janeiro, que coordeno no Centro Cultural Cartola, para que possamos refletir sobre o processo de transmissão de nossas tradições. A participação de famílias nas quadras, garantia a passagem do saber de geração a geração. Hoje os mais antigos, são ou estão afastados de seus terreiros, e esses espaços não mais divididos com seus herdeiros.
Quando Mestre Mug começou a frequentar a Vila Isabel o soberano da bateria chamava-se Ernesto. E Mestre Ernesto era da seguinte filosofia: "O aprendiz tem que usar o poder da observação, o aprendiz tem que olhar, prestar atenção, e repetir quantas vezes forem necessárias. Esta orientação vale para todos os integrantes da bateria, sejam eles, parentes ou não". Segundo Mug, grande parte dos ritmistas chegavam à bateria adulta meio "selvagens"; com muita pressa, e o Mestre Ernesto, "botava um freio neles".
Não foi à toa que Mestre Mug reconheceu o "jeito vaselina" como uma grande qualidade para um mestre de bateria. "O diretor de bateria não pode ser brigão. Tem que levar a turma no bico, ser vaselina". Como referência de liderança, exemplo de atitude, lembrou de Waldomiro da Mangueira, Marçal da Portela, André da Mocidade de Padre Miguel, Mestre Chico e Mestre Louro do Salgueiro.
Sucessor de Mestre Erneto, Mestre Mug deixou sua marca na Vila Isabel. Defensor da tradição, Mestre Mug se angustia com as mudanças no desfile. Acredita, por isso, que as diferenças rítmicas, entre as escolas, estão com dias contados. O regulamento, segundo ele, é um conjunto de imposições que pode levar a pasteurização do desfile.
Além da rigidez do regulamento, ele denuncia outro vilão: o poder econômico, uma espécie de mal necessário, ele reconhece que fazer carnaval é muito caro. Daí, a importância do patrono. Quanto às paradinhas e coreografias, confessa que nunca gostou destas estripulias.
O amor pela azul e branco de Vila Isabel lhe credita quase um recorde: 12 anos de trabalho sem salário. A crise não afastou a escola do coração. Na época, sem quadra e sem dinheiro, a bateria usava como palanque a marquise de uma agência bancária. Solidário, o Clube Maxwell cedeu espaço para tirar a Vila Isabel da triste condição de sem-teto.
Protagonista de todos estes momentos, ele filosofa para traduzir sua firmeza: "a atitude é um fator fundamental no samba". E a atitude de Mestre Mug tem sido de total coerência, sobretudo, no momento em que abriu mão do cargo de Ogã, para entrar no mundo do samba. Ele chegou à bateria da Vila Isabel, em 1967, ainda Amadeu Amaral. Cinco anos depois, em 1972, aceitou o desafio de substituir pela primeira vez Mestre Ernesto. O afastamento de Mestre Ernesto durou até 1974. Com a volta de Mestre Ernesto passou a modesto assistente do velho titular. Esta condição se estendeu até 1978 quando Mestre Ernesto se afastou definitivamente da Vila. Naquele ano, Mestre Mug amargou o rebaixamento da escola. Em 1979, lá estava ele, dignamente defendendo as cores da Vila Isabel, no segundo grupo. A recompensa viria, em 1988, quando a Vila ganha, pela primeira vez, o título de campeã com o clássico Quizomba, Festa da Raça. Passaram-se 18 anos para que Mestre Mug viesse a comemorar o segundo campeonato. A maestria de Mestre Mug e seus ritmistas embalaram o Soy Louco Por Ti América, enredo de 2006, com o qual a escola sagrou-se campeã.
Depois de 37 anos de dedicação e amor, Mestre Mug sonhava em passar o apito para o filho ou sobrinho, que vinham sendo treinados por ele para essa condição. A diretoria da escola, contudo, tinha outros planos. Em 2008, o sonho de Mestre Mug acabou. Era o fim de uma era.
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