segunda-feira, 25 de julho de 2011

E eles verão a Deus...



Em nosso texto anterior comentamos aspectos relevantes ao quesito samba-enredo e que foram alvo de discussão em seminário, aproveitamos a busca de enredos tipicamente culturais, tão em voga para o ano de 2012 e principalmente a escolha de dois pintores de renome, exemplos de talento, abnegação e luta pelo ideal, pelas duas escolas da Zona Oeste da Cidade Maravilhosa (Mocidade Independente de Padre Miguel e Renascer de Jacarepaguá) para homenagear a construção poética que a Unidos da Ponte abrilhantou o carnaval de 1983, um grande enredo que louvou os artistas do pincel, um grande samba guardado na memória de tantos sambistas...
Vejo o mundo assim uma escala de notas, um mosaico de sons, sustenidos, bemóis, ecos relativos na infinitude da música; alguns percebem o mundo em movimentos e ritmo, passos e coreografia, são poetas dos gestos e tornam visível a música através da mágica dança; mas todo aquele que deu vida e forma as cores "... viu o mundo assim uma aquarela...", criando na tela as matizes da perfeição e descobriu "... a imagem do amor e a verdade da vida...". Era o ano de 1983, ano de grandes sambas e alguns para sempre "...Quando o pranto se fez canto na razão do dia a dia..."
Muito antes do "alô povão agora é sério!" ecoar sucesso na avenida, o alô povão meritiense! Passava ao largo da grande mídia radiofônica. A Mocidade cantava: Ó Morena morada do sol e da lua... E a madeira, das arquibancadas, corroída pelo tempo preparava-se para seu último ato, mas será que alguém percebeu a sensibilidade do "...hoje a natureza canta e a musa se encanta para festejar..." A criação de traços, cores e telas. Eu me deixei levar pela leveza harmônica dessa melodia sem par, obra prima em que os compositores receberam o beneplácito dos deuses da inspiração. Não venho com isso insinuar que o samba tenha sido ignorado pelo povo carnavalesco, de forma alguma, porém é do âmago do ser humano julgar o todo pela parte, o conteúdo pela forma, o contexto pelo nome e, humanos que somos, por vezes deixamos de dar a devida atenção a quem a mereça.
Um painel de simplicidade emoldura a beleza desta construção, algo inédito para meus ouvidos tão acostumados com os sons do carnaval no despertar de minha juventude, rara melodia em tom maior que chega a emocionar como se em tom menor fosse. Percebe-se, que muito mais que uma ode á grandes Pintores, o enredo busca transparecer a força que leva estes artistas à criação, força que ilumina a imaginação daqueles predestinados a eternizarem através do pincel momentos de grande valor, e isso está bastante claro e poético na letra do samba. É válido salientar que a Unidos da Tijuca, no mesmo ano em questão, viajou pela arte concebida para valorizar a natureza e a matéria criada pelo ser supremo, uma "Ponte" que sempre rendeu lindos sambas como: "...Brasil devagar com o andor que o santo é de barro..." Afinal, quando o mar murmura e o dia sorri, o criador e a obra viajam ao encontro daquele que é capaz de realizar a maior das pinturas: Deus. "E Eles verão a Deus razão de todo seu imaginar..." e eles viram a Deus, vendo o mundo assim uma escala de notas na infinitude da música, parabéns a Mazinho, Ambrósio e Renatinho. Com toda minha admiração e respeito pelo samba antológico.
Nota 01: Saliento que com raras exceções somente conseguimos grandes sambas a partir de grandes enredos, eu só consigo lembrar com boa vontade de dois ou três casos que fogem a regra e surgiram grandes sambas de enredo menores, porém o peso da criação recai exclusivamente sob os pais da criança, nós compositores; ontem gravando o samba da Querida Nenê de Vila Matilde para o concurso do carnaval de 2012 no estúdio do grande interprete do Salgueiro Leonardo Bessa, pude escutar a opinião do Mestre Reginaldo Bessa, que chegou a um grande exemplo da exceção: Domingo da União da Ilha, samba antológico em um enredo bom, leve mais um tanto inocente, que rendeu um desfile marcante.
Nota 02: Alguns críticos afirmam que reedições não deveriam ser feitas por não funcionarem, vai o meu agradecimento a Unidos da Ponte, Unidos de Lucas, Império Serrano e ao Império da Tijuca, entre outras agremiações, por presentearem o carnaval com reedições fantásticas e contrariarem os críticos de plantão.
Nota 03: Aos saudosistas, posto que me vejo por vezes como tal, lembro que sambas bons e ruins sempre existirão. Faça você mesmo sua análise, escute os novos e os antigos sambas e acima de tudo tente entender o processo evolutivo do ritmo que faz parte de um paradigma maior, referente a todo espetáculo, fechar os olhos para o processo e gritar aos quatro cantos que o bom é, somente, o que desfilou ontem, não passa de ignorância.

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